10 Falácias

Pastor Silas Malafaia: falácias para dar e vender. Especialmente vender.

Pastor Silas Malafaia: falácias para dar e vender. Especialmente vender.

Falácia é um argumento inconsistente que, normalmente, aparenta ser verdadeiro.

Sem me demorar sobre a definição e sem explorar a origem do termo, seguirei listando os 10 tipos de argumentos falaciosos escolhidos para este post e fornecendo exemplos reais para cada um deles.

 

1. ATAQUE À PESSOA

Um argumento “ad hominem” consiste em atacar ou destacar jocosamente o caráter ou as características de seu adversário.

Exemplo:

O pastor Silas Malafaia fez diversas afirmações sobre a homossexualidade. Ao ser respondido por um geneticista, teceu argumentos ad hominem na tentativa de desqualificá-lo.

Tipo explícito: “Se o rapaz metido a doutor em Genética quiser saber mais, leia o livro (…)

Tipo implícito: “Minha resposta ao doutorando em Genética, que me parece estar defendendo a sua causa na questão da homossexualidade (…)”

Um outro exemplo é o que fiz com a legenda da foto neste post, adicionando “Especialmente vender” ao final da frase: (mais) um ataque direto à pessoa.

Link para a resposta de Malafaia na íntegra: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/pastor-silas-malafaia-responde-ao-biologo-eli-vieira

 

 

2. AMBIGUIDADE

Consiste em permitir a confusão entre dois significados diferentes de uma mesma expressão ou palavra.

Exemplo:

O pastor Silas Malafaia, assim como muitos outros religiosos, costuma dizer que a teoria da evolução é apenas uma teoria. Assim, não diferencia teoria científica de teoria popular, permitindo a confusão de seus significados. O que chamamos de teoria no dia-a-dia, sobre o que realmente podemos dizer “é só uma teoria”, é chamado “hipótese” em termos científicos. O indivíduo observa o mundo e formula hipóteses sobre seu funcionamento. Ao seguir o caminho científico, um plano de experimentos deve ser montado para verificar a validade das hipóteses. Após desenvolver este corpo de conhecimento, tendo efetuado experimentos com rigorosa metodologia, pode-se formular uma teoria científica. O caminho científico ainda preconiza que os resultados e a metodologia sejam compartilhados com a comunidade, de forma a permitir que outras pessoas façam os mesmos procedimentos e verifiquem se obtém os mesmos resultados, além de poderem questionar a fidedignidade da metodologia. Uma teoria precisa passar por todas estas etapas para ser aceita pela comunidade científica e este é o máximo que pode alcançar. Uma “lei científica”, como a lei da gravidade, é a expressão de um comportamento, não uma teoria que por ter sido comprovada passou a ser chamada “lei”.
Portanto, a diferença entre os dois sentidos da palavra “teoria” é grande e permitir que as pessoas confundam seus significados é o artifício deste tipo de falácia.

 

 3. APELO À AUTORIDADE

Consiste em citar a opinião de uma pessoa ou instituição em vez de apresentar um argumento real, esquivando-se de tratar diretamente o assunto.

Exemplo:

Silas Malafaia, na mesma resposta ao geneticista Eli Vieira, diz “Se o rapaz metido a doutor em Genética quiser saber mais, leia o livro Nascido gay?,  do Dr. John S. H. Tay, que tem mestrado em Pediatria e dois doutorados: um em Genética e outro em Filosofia, e analisou 20 anos de pesquisas sobre o assunto“.

 

4. “BOLA DE NEVE”

Consiste em dizer que se permitirmos que “A” aconteça, então “Z” necessariamente acontecerá e que, portanto, não devemos permitir que “A” aconteça.

Exemplo:

Pastor Marco Feliciano, sobre o direito das mulheres: “Quando você estimula uma mulher a ter os mesmos direitos do homem, ela querendo trabalhar, a sua parcela como mãe começa a ficar anulada, e, para que ela não seja mãe, só há uma maneira que se conhece: ou ela não se casa, ou mantém um casamento, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo, e que vão gozar dos prazeres de uma união e não vão ter filhos. Eu vejo de uma maneira sutil atingir a família; quando você estimula as pessoas a liberarem os seus instintos e conviverem com pessoas do mesmo sexo, você destrói a família, cria-se uma sociedade onde só tem homossexuais, você vê que essa sociedade tende a desaparecer porque ela não gera filhos“.

Neste trecho, “A” significa estimular as mulheres a buscarem direitos iguais. “Z” significa o fim da sociedade.

Link para fonte: http://oglobo.globo.com/pais/marco-feliciano-diz-que-direitos-das-mulheres-atingem-familia-7889259

 

5. APELO À FORÇA

Consiste em informar o adversário de que se ele não concordar com você, sofrerá terríveis consequências.

Após o papa Francisco dizer, em 2013, que todas as pessoas que praticam boas ações vão para o paraíso após a morte, o porta-voz do Vaticano no Canadá, Thomas Rosica, completou: “os ateus continuam indo para o inferno se não aceitarem Jesus Cristo como Senhor e Salvador”.

Fonte: http://oglobo.globo.com/mundo/lider-catolico-corrige-papa-salvacao-nao-vale-para-quem-nega-igreja-8509360

 

6. ESPANTALHO

Consiste em atacar uma versão mais fraca do argumento adversário, distorcendo seu sentido original.

Exemplo: Richard Dawkins, em seu livro “Deus, um delírio”, afirma que em uma escala de 1 a 7, onde 1 é a certeza absoluta de que deus existe e 7 é a certeza absoluta de que deus não existe, ele se considera um 6.9 (para evitar a fadiga de uma dízima).

Sendo impossível provar que algo não existe, qualquer cético teria de seguir o mesmo caminho, pois considerar-se um 7 nesta escala significa não apreciar suficientemente os princípios do pensamento científico. Existe uma chance matemática ínfima de que, quando você se atirar contra a parede do seu quarto, você passe pela parede, completamente, e chegue são e salvo do outro lado (torço que você não more em um andar alto). Esta chance de fato existe, de acordo com as leis da física quântica, mas sua probabilidade é tão pequena que, estatisticamente, ainda não se passaram segundos suficientes desde o Big-Bang para que isso aconteça. Portanto, não espero que você tente se atirar contra a parede agora – e eu também não o farei, nem agora, nem no futuro. Neste sentido, sou um “a-passagem-por-paredes”, e você também é. Assim, ser um 6.9 na escala de ateísmo é ser ateu. É isso que significa ser ateu! E este é exatamente o argumento de Dawkins, conforme desenvolvido por ele no livro. Porém, muitos religiosos criaram um espantalho deste argumento, dizendo que Dawkins assumira seu agnosticismo, em vez de ateísmo, o que, por si só, também funcionava como argumento ad hominem.

Um outro exemplo, agora de como ateístas costumam usar este tipo de argumento, é dizer que deus não existe porque a história do velhinho barbudo no céu é um absurdo. Claramente, este argumento faz um espantalho da visão religiosa moderada, que interpreta o dogma de forma menos literal.

 

7. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA / APELO À IGNORÂNCIA

Consiste em afirmar algo, dizer que o adversário é quem deve provar que aquilo é falso e que, caso ele não consiga, a proposição só poderá ser verdadeira.

Exemplo:

O pastor Rubens Teixeira lançou o desafio: “Você é ateu? Se você é ateu, então você me prove cientificamente que Deus não existe“.

Neste caso, a afirmação inicial (implícita) é de que deus existe. O adversário deve provar que deus não existe e, caso não consiga, concluir-se-á que deus existe (a falácia de “apelo à ignorância” – se algo não pode ser provado falso, então só pode ser verdadeiro).

Fonte: http://blogs.odiario.com/inforgospel/2011/03/11/deus-nao-existe-pastor-desafia-ateus-a-provarem-cientificamente/

 

8.  OMISSÃO

Consiste em excluir da argumentação provas importantes, que arruinariam o argumento.

Exemplo:

Silas Malafaia, sobre o caráter homofóbico do Brasil e a necessidade de leis específicas para lidar com isso: “Ano passado foram assassinadas 50 mil pessoas no Brasil. O índice dos homossexuais neste número é 0,52%. Ínfimo para dizer que [o Brasil] é homofóbico“.

O que foi omitido: 0,52% dos assassinatos do ano em questão (2011) representam 271 casos (de acordo com o governo federal, foram registrados 52.198 homicídios em 2011. Os casos de homicídio por homofobia foram, na verdade,  278). No mesmo ano, foram registrados até novembro 23 homicídios de mulheres decorrentes de violência doméstica, que possui uma lei específica (Maria da Penha). Se há uma lei para lidar com violência doméstica e se usaremos a quantidade de casos de homicídio para justificar sua legitimidade, então torna-se necessário reconhecer a legitimidade de uma lei para lidar com violência homofóbica, pois o número de casos é muito maior.

Fonte do texto do Silas Malafaia: http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed690_argumento_fragil_e_equivocado

Fonte do número de assassinatos por homofobia: http://noticias.terra.com.br/brasil/brasil-teve-278-assassinatos-por-homofobia-em-2011-diz-governo,b99ddc840f0da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html

Fonte do número de femicídios conjugais: http://www.esquerda.net/artigo/clone-umar-apresenta-dados-sobre-mulheres-assassinadas-em-2011

 

9. FALSO DILEMA

Consiste em apresentar um número reduzido de opções, quando na verdade existem mais.

Exemplo:

Um blog fundamentalista alerta: “Jesus está voltando. Você prefere o inferno ou Jesus?

É comum haver mais de uma falácia na mesma construção. Neste caso, o blogueiro recorre tanto ao falso dilema quanto ao apelo à força (também recorre à “invenção de fatos”, mas esta falácia não será tratada neste post).

Fonte: http://arvoredepimenta.blogspot.com.br/2012/04/desperte-acorde-jesus-esta-vindo.html

 

10. PETIÇÃO DE PRINCÍPIO

Consiste em apresentar um argumento circular, onde a conclusão já estava incluída na premissa.

Exemplo:

Em um site de estudos bíblicos, encontramos a seguinte pergunta e sua resposta: “Por que é importante acreditar na inerrância bíblica?

1. A Bíblia mesmo diz ser perfeita. ‘As palavras do SENHOR são palavras puras, prata refinada em cadinho de barro, depurada sete vezes’ (Salmos 12:6). ‘A lei do SENHOR é perfeita’ (Salmos 19:7). ‘Toda palavra de Deus é pura’ (Provérbios 30:5). Essas declarações de pureza são relatos absolutos. Note que a Bíblia não diz que ‘Quase toda palavra de Deus é pura’ ou ‘A lei do SENHOR é quase perfeita’. A Bíblia argumenta sua perfeição completa, não deixando nenhum espaço para teorias de ‘perfeição parcial‘”.

As premissas são que deus existe, que ele é perfeito e que ele escreveu ou guiou a escrita da bíblia. Ou seja, o argumento é que a bíblia é perfeita porque ela mesma diz ser perfeita.

Fonte: http://www.gotquestions.org/Portugues/inerrancia-biblica.html

 

FALÁCIA BRINDE!!!

11. A FALÁCIA DA FALÁCIA

Se caracteriza por entender que um argumento é falso simplesmente porque uma falácia foi usada para defendê-lo.

Exemplo:

Na foto deste post usei um ataque à pessoa, um argumento ad hominem contra Silas Malafaia, apontando a exploração gananciosa que ele pratica. Isso não significa que ele não pratique esta exploração gananciosa – de fato, tudo indica que a pratica com esmero.

 

E agora, apenas para dar um gostinho, segue o índice da lista completa de falácias descrita por Stephen Downes, autor do “Guia de Falácias Lógicas do Stephen”:

  • Falácias da Dispersão (manobras de diversão)
    • Falso dilema (falsa dicotomia)
    • Apelo à ignorância
    • Derrapagem (bola de neve ou declive ardiloso)
    • Pergunta complexa
  • Apelo a Motivos (em vez de razões)
    • Apelo à força
    • Apelo à piedade
    • Apelo a consequências
    • Apelo a preconceitos
    • Apelo ao povo
  • Fugir ao Assunto (falhar o alvo)
    • Ataques pessoais
    • Apelo à autoridade
    • Autoridade anónima
    • Estilo sem substância
  • Falácias Indutivas
    • Generalização precipitada
    • Amostra não representativa
    • Falsa analogia
    • Indução preguiçosa
    • Omissão de dados
  • Falácias com regras gerais
    • Falácia do acidente
    • Falácia inversa do acidente
  • Falácias causais
    • Post hoc
    • Efeito conjunto
    • Insignificância
    • Tomar o efeito pela causa
    • Causa complexa
  • Falhar o alvo
    • Petição de princípio
    • Conclusão irrelevante
    • Espantalho
  • Falácias da ambiguidade
    • Equívoco
    • Anfibologia
    • Ênfase
  • Erros categoriais
    • Falácia da composição
    • Falácia da divisão
  • Non sequitur
    • Falácia da afirmação da consequente
    • Falácia da negação da antecedente
    • Falácia da inconsistência
  • Falácias da explicação
    • Inventar factos
    • Distorcer factos
    • Irrefutabilidade
    • Âmbito limitado
    • Pouca profundidade
  • Erros de Definição
    • Definição demasiado lata
    • Definição demasiado restrita
    • Definição pouco clara
    • Definição circular
    • Definição contraditória

 

Finalmente, como segundo brinde, fica a nota de repúdio do conselho federal de psicologia às afirmações de Silas Malafaia a respeito da homossexualidade: http://site.cfp.org.br/cfp-se-posiciona-contrariamente-declaracoes-do-pastor-silas-malafaia/

Espero que você goste do post, demorei um tempão pra escrever (falácia do apelo à piedade).

3 thoughts on “10 Falácias

  1. Sei que tomou tempo, mas ficaria lendo por horas o “Falácia Ilustrada”. As figuras religiosas são um prato cheio.

    Infelizmente fé e lógica só andam de mãos quando convém, na minha humilde opinião.

    Um tempo atrás trombei com o sítio https://yourlogicalfallacyis.com e gostei bastante da linguagem visual que o autor usou para explicar as falácias.

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