“12 maneiras de jogar energia fora” – Transposição para a visão cética

Aquele que não assume a responsabilidade por suas venturas e desventuras sempre estará vulnerável às energias ao seu redor.

– Vera Caballero (Professora de Yoga, numeróloga, terapeuta floral, Reiki master, massoterapeuta, ministra cursos e palestras sobre bioenergias)

 

Este texto é uma “transposição” do seguinte post: http://corpoinconsciencia.wordpress.com/2013/08/03/12-maneiras-de-jogar-energia-fora/, escrito por Vera Caballero, e pretende apresentar uma abordagem cética às mesmas questões, alterando apenas algumas palavras, ponto a ponto.

Recomendo a leitura do post citado, mas fiz o possível para reproduzir o post original na íntegra, mantendo as palavras substituídas com texto riscado (uma forma pouco elegante, mas que foi escolhida por ser a mais prática neste editor de texto). O texto original está em itálico, para facilitar o uso das citações sem perturbar demais o corpo do texto, e as palavras que sugiro como alternativa estão em negrito.

 

ENERGIA

Antes de mais nada, é preciso falar brevemente sobre o significado de “energia” conforme usado pela autora, que é diferente do significado usado na física. Quando ela diz que um indivíduo “estará vulnerável às energias ao seu redor”, não se refere à energia potencial ou cinética do balde que pode cair na cabeça de quem passa por baixo de uma escada. Nem tampouco à energia radiante que é dispersada pelo urânio ou plutônio em um acidente nuclear. Este ponto é a base desta análise e das “transposições” como um todo: não adianta tentar interpretar o texto do ponto de vista estritamente científico e dizer que a autora está errada ao usar palavras como “energia” para falar de emoções e relações humanas. O que precisamos é entender até que ponto os termos científicos podem nos ajudar a descrever as mesmas situações, porque não há dúvida de que elas acontecem e fazem parte das nossas vidas. Em algumas situações, substituí referências à “energia” por palavras que me parecem descrever mais precisamente a mesma coisa, dentro do contexto. Em outros, apenas interpreto como “energia física” (investimento de ATP e substâncias que funcionam como combustível para que as células desempenhem sua função).

 

1. A FALTA DE CUIDADO COM O CORPO E HÁBITOS

Descanso, boa alimentação, hábitos saudáveis, exercícios físicos e o lazer sempre são colocados em segundo plano. A correria da vida diária e a competitividade das grandes cidades faz com que acabemos negligenciando aspectos básicos para a manutenção de nossa saúde energética física e emocional. Quando a saúde física está comprometida, a aura se ressente, ficando menor e menos brilhante, comprometendo nosso sistema de defesa energético falhamos em produzir todos os recursos de que nossos corpos precisam para funcionar bem, incluindo a produção de hormônios, que está diretamente ligada ao humor e às funções essenciais do corpo. Os exercícios físicos são sempre úteis por nos ajudar a movimentar e eliminar as energias estáticas recuperar o equilíbrio hormonal e emocional, pois têm como resultado a produção de endorfinas reguladoras do sistema. As pessoas que são dependentes químicos apresentam verdadeiros rombos na aura severas disfunções na produção e no recolhimento das endorfinas, e isso as predispõe a toda sorte de assédios espirituais e vampirismo energético desequilíbrios físicos e emocionais. Vale ressaltar que algumas substâncias químicas têm a função de re-equilibrar o sistema, como a paroxetina, por exemplo. Também é possível tornar-se dependente dessas substâncias e, para lidar com este tipo de complexidade, um post sobre drogadição precisa de um espaço separado.

 

2. PENSAMENTOS OBSESSIVOS

Pensar gasta energia (neste caso específico, a palavra “energia” poderia ser usada na visão cética, significando o investimento de ATP nos processos mentais: o cérebro consome aproximadamente 20% de todo ATP produzido pelo corpo) e todos nós sabemos disso: ficar remoendo um problema cansa mais do que um dia inteiro de trabalho corporal. Quem não tem domínio sobre seus pensamentos e esse é, aliás, um mal do homem ocidental, torna-se escravo da mente e acaba gastando muita energia. Pensamos tanto que não sobra vitalidade para tomar uma atitude concreta e, o pior, alimentamos ainda mais o conflito.

Devemos não só estar atentos ao volume de pensamentos, mas também à qualidade deles. Pensamentos positivos, éticos e elevados nos recarregam, ao passo que a negatividade e pessimismo consomem energia e atraem mais negatividade para nossas vidas nos mantém presos em círculos viciosos que pouco contribuem para nossa qualidade de vida. Observe: pensando você conseguiu resolver o problema? Quase sempre a resposta é ‘não’. Então, mude de atitude Se o problema for do tipo que pode ser resolvido com grandes doses de atenção sobre ele, faça turnos de atenção dedicada, pois o foco ininterrupto mais atrapalha do que ajuda.

Relaxe, use uma música suave e entregue o problema para o universo resolver permita-se pensar em outros assuntos por algum tempo. Mesmo que isso aconteça apenas por alguns poucos minutos. Durante esse tempo sua mente estará descansando. Quando a mente silencia, permite que sua intuição, seu anjo da guarda, Deus, Eu Superior ou o que você acreditar, converse com você e lhe traga inspiração e criatividade e isso se reverte em mais energia os neurônios que estavam sendo usados realmente descansem, abrindo a possibilidade de usá-los novamente com mais sucesso. Isso acontece porque o cérebro libera adenosina sempre que neurotransmissores são usados. Quanto mais intensa é a atividade de um determinado local no cérebro, mais adenosina se acumula em volta dos neurônios e isso faz com que a atividade local seja refreada. Ou seja, quanto mais adenosina, menos efetiva fica a troca de neurotransmissores naquela região. Mudar de atividade momentaneamente é o suficiente para que a adenosina seja eliminada e você possa voltar com força total. Os meus alunos têm semanalmente 2 horas para fazer isso, o resultado é muito bom. Que privilégio, não?!!!!

 

3. SENTIMENTOS TÓXICOS

Se você sofre um choque emocional ou sente uma raiva intensa, pode estar certo, até o final do dia estará simplesmente esgotado energeticamente. Juntamente com a raiva você queimou altas doses de sua energia pessoal. Imagine agora um ser que nutre ressentimentos e mágoas, às vezes durante anos seguidos. De onde você acha que vem o combustível para alimentar esses sentimentos tão densos? Não é à toa que muitas dessas pessoas ficam estagnadas e não são prósperas, afinal, a energia que alimenta o prazer, o sucesso e a felicidade está sendo gasta na manutenção de sentimentos negativos (é verdade também do ponto de vista cético: a energia do sistema é limitada e o foco em pensamentos negativos ocupa o espaço que poderia produzir os positivos. Vale apenas ressaltar que neste contexto o cético lê “energia” como “energia física”, o combustível de todo o sistema corporal, a produção de enzimas e hormônios. Um corpo equilibrado contribui muito para um estado emocional equilibrado. Do ponto de vista cético, dizer que gastamos energia demais em algo é o mesmo que dizer que poderíamos estar focando em outras atividades, que seriam mais satisfatórias para o indivíduo. De agora em diante, sempre que esta palavra puder ser usada no sentido cético, significando recursos bioquímicos, não farei comentários).

Medo gasta energia, culpa também, já a ansiedade descompassa a vida. Por outro lado, os sentimentos positivos e elevados, como a amizade, o amor, a confiança, o desprendimento, a solidariedade, a auto-estima e principalmente a alegria e bom humor recarregam focalizam nossa energia em padrões física e emocionalmente sustentáveis e nos dão força para empreender projetos e superar obstáculos.

 

4. FUGIR DO PRESENTE

Onde eu coloco a minha atenção aí coloco a minha energia. É tendência freqüente do ser humano achar que no passado as coisas eram mais fáceis: ‘bons tempos aqueles!”. Tanto os saudosistas, que se apegam aos prazeres do passado, quanto aqueles que não conseguem esquecer os traumas e desatinos de tempos atrás, estão colocando suas energias no passado.

Por outro lado temos os sonhadores ou aqueles que vivem numa eterna expectativa do futuro, depositando nele sua felicidade e realização. Viver no tempo passado ou futuro faz com que sobre pouca ou nenhuma energia no tempo presente. E é somente no presente que você constrói sua vida. O passado e o futuro dependem unicamente do seu momento presente. Aquele que vive sempre no tempo errado não tem em mãos uma dose de energia suficiente para se proteger das energias e locais densos não consegue se relacionar com o único momento disponível para atuação, o agora, e deixa passar as oportunidades de realizar seus sonhos e desejos no mundo real.

 

5. FALTA DE PERDÃO

Perdoar significa soltar. Soltar ressentimentos, mágoas, culpas. Soltar o que aconteceu e olhar somente para a frente e viver o presente. Quanto mais perdoamos, menos bagagem interior carregamos e gastamos menos energia alimentando feridas do passado. Mais do que uma regra religiosa, o perdão é uma atitude inteligente daquele que busca viver bem e quer seus caminhos livres e abertos para a felicidade. Aquele que não sabe perdoar os outros e a si mesmo, fica ‘energeticamente obeso’, carregando fardos do passado e isso requer muita energia (nada específico a comentar aqui. A visão cética não deve ser chata a ponto de descartar metáforas como ‘energeticamente obeso’ quando elas são colocadas em um sentido não-místico).

 

6. MENTIRA PESSOAL

Todos nós mentimos ao longo de nossas vidas e sabemos quanta energia é gasta posteriormente para sustentar a mentira e, quase sempre, acabamos sendo pegos. Imagine agora quando ‘você é a mentira’. Quanta energia gastamos para sustentar caras, poses, desempenhos que não são autênticos!!! Somos educados para desempenhar papéis e não para sermos nós mesmos. A mocinha boazinha, o machão, a vítima, a mãe extremosa, o corajoso, o pai enérgico, a mártir, o intelectual, a lista é enorme. Quando somos nós mesmos a vida flui e tudo acontece com pouquíssimo esforço. O mesmo não é válido quando queremos desempenhar um papel que não é o nosso .

 

7. VIVER A VIDA DO OUTRO

Ninguém vive só, através dos relacionamentos interpessoais evoluímos e nos realizamos. Mas é preciso ter noção de limites e saber amadurecer também nossa individualidade. Esse equilíbrio que traz senso de limite e respeito por si e pelo espaço do outro nos resguarda energeticamente e nos recarrega é a posição mais ética a se adotar, pois reconhece o direito dos outros de serem donos da própria vida e agirem de acordo com a própria consciência – algo que você também deseja para si. Quem cuida da vida do outro, sofrendo seus problemas e interferindo mais do que é recomendável, acaba não tendo energia para construir sua própria vida. O único prêmio, nesse caso, será a frustração. Quando interferimos na vida alheia, nos misturamos com o carma negativo do outro e trazemos isso para nossa vida.

 

8. BAGUNÇA E PROJETOS INACABADOS

A bagunça afeta de forma muito negativa as pessoas, causando confusão mental e emocional. Um truque bem legal para os períodos confusos é arrumar a casa, os armários, gavetas, a bolsa, os documentos e tudo o que mereça uma boa faxina. À medida em que ordenamos e limpamos os objetos, também colocamos em ordem a mente e o coração. Pode não resolver o problema, mas nos ajuda bastante e traz um grande alívio.

Outra forma bem eficiente de perder energia é não terminar tarefas. Todas as vezes, por exemplo, que você vê aquela blusa de tricô que não concluiu, ela lhe diz inconscientemente: “você não me terminou! Você não me terminou! E isso gasta uma energia tremenda! Ou você termina definitivamente a blusa ou livre-se dela e assuma que não vai terminá-la. O importante é tomar uma atitude.

O desenvolvimento do auto-conhecimento, da disciplina e da determinação farão com que você não invista em projetos que não serão concluídos e que apenas consumirão tempo e energia.

E lembre-se, bagunça e sujeira são ótimas moradas para energias densas e desarmoniosas (o cético simplesmente não é sensível a este tipo de afirmação e não necessita dela para apreciar o resto do texto. Para o cético, esta frase não significa nada além do que já foi dito acima e, portanto, parece apenas adicionar um tom “místico” a algo real, prejudicando a compreensão).

 

9. AFASTAMENTO DA NATUREZA

A Natureza é nossa maior fonte de alimento energético e, além de nutrir, também nos limpa das energias estáticas e desarmoniosas uma ótima fonte de equilíbrio emocional. O homem moderno, que habita e trabalha em locais muitas vezes doentios e desequilibrados, vê-se privado dessa fonte maravilhosa de energias tranquilidade.

A competitividade, o individualismo (exacerbado) e o estresse das grandes cidades agravam esse quadro e favorecem o vampirismo energético, onde todos sugam e são sugados em suas energias vitais as relações desequilibradas, onde todos perturbam e são perturbados, onde o respeito é escasso e o interesse pessoal rege sozinho a maioria das interações. Procure, sempre que possível, estar junto à Natureza. Você também pode trazê-la para dentro de sua casa ou local de trabalho. Além de um ótimo recurso decorativo, as plantas humanizam os ambientes, nos acalmam e absorvem as energias negativas e poluentes (é curioso pensar que as plantas humanizam os ambientes, em vez de “plantificá-los”, o que quer que isso signifique. Mas o sentido é que o ser humano é caracterizado pelo cuidar, e as plantas abrem essa oportunidade, além de refletirem o cuidado que recebem. O simples foco de atenção em cuidar de uma planta ou contemplá-la é uma forma de dedicar seu tempo a atividades emocionalmente satisfatórias).

 

10. PREGUIÇA, NEGLIGÊNCIA

E falta de objetivos na vida. Esse item não requer muitas explicações: negligência com a sua vida denota também negligência com seus dons suas habilidades e potenciais e, principalmente, com sua energia vital. Aquilo do que você não cuida, alguém vem e leva embora perde-se e acaba ficando inacessível (habilidades e potenciais não podem ser roubados por outros). O resultado: mais preguiça, moleza, sono….

 

11. FANATISMO

Passa um ventinho: “Ai meu Deus!!!! Tem energia ruim aqui!!!” Alguém olha para você: “Oh! Céus, ela está morrendo de inveja de mim!!!” Enfim, tudo é espírito ruim, tudo é energia do mal, tudo é coisa do outro mundo. Essas pessoas fanáticas e sugestionáveis também adoram seguir “mestres e gurus” e depositar neles a responsabilidade por seu destino e felicidade. É fácil, fácil manipular gente assim e não só em termos de energia pensamentos, mas também em relação à conta bancária! Aqui vale uma ressalva: o que permite alguém definir qual “ventinho” é fruto de “energias ruins”? Nada indica que haja “energias ruins” capazes de afetar a realidade, a menos através dos comportamentos de quem tem pensamentos destrutivos. Ou seja, é mesmo muito saudável desconfiar de que um “espírito” ou “energia do mal” é responsável por alguma coisa. Pessoas são responsáveis pela maioria das coisas que afetam as nossas vidas. As leis da natureza são responsáveis pelo resto. Do ponto de vista cético, não há espaço para influências sobrenaturais, os fenômenos podem ser explicados sem recorrer a este tipo de coisa. E quando não podem, também não há razão para pensar que haja influências paranormais, já que elas violariam as leis que conhecemos da natureza, e estas leis conseguem prever exatamente o funcionamento da realidade. Por exemplo, se um espírito pudesse fazer diferença na matéria, não seria possível estabelecer as leis do movimento (Newton, 1687), elas estariam sempre sujeitas aos caprichos de alguma entidade sobrenatural. No entanto, as leis funcionam com uma precisão que não deixa margens para a hipótese de outras influências não contabilizadas. Em um outro post, pretendo abordar com mais calma a questão das supostas influências psíquicas de seres sobrenaturais.

 

12. FALTA DE ACEITAÇÃO

Pessoas revoltadas com a vida e consigo mesmas, que não aceitam suas vidas como elas são, que rejeitam e fazem pouco caso daquilo que têm. Esses indivíduos vivem em constante conflito e fora do seu eixo. E, por não valorizarem e não tomarem posse dos seus tesouros – porque todos nós temos dádivas – são facilmente ‘roubáveis’.
O importante é aprender a aceitar e agradecer tudo o que temos (não confundir com acomodação). Quando você agradece e aceita fica em estado vibracional tão positivo uma postura emocional tão positiva que a intuição e a criatividade são despertadas. Surgem, então, as possibilidades de transformar a vida para melhor!

————————————————————————————————————————————-

 

Por hoje é só, pessoal! Esta foi a transposição do artigo da Vera Caballero para termos céticos. Está longe de perfeita, mas busquei ser econômico para não ficar chato demais. Que esta seja a primeira transposição de muitas! Agradeço à Vera pelo texto bem escrito e informativo.

36 thoughts on ““12 maneiras de jogar energia fora” – Transposição para a visão cética

  1. Ser Cético é energéticamente muito chato!! quanto mais no pragmatismo!

    concordamos que existe muito misticismo barato, mas por isso devemos construir uma “capa conceitual protetora” e viver num fanatismo reverso?

    Só pra pensar um pouco, céticamente!!

    Atenciosamente subscrevo-lhe

  2. Boa, Fernandes, muito legal o seu questionamento!

    Antes de mais nada, me parece que pode ser muito chato ou muito bacana ser cético. Será chato se o ceticismo nos impedir de vivenciar qualquer paralelo com a parte mística. Esse paralelo fica no sentimento numinoso, que continua disponível para o cético. O sentimento, por exemplo, de ser “um com o todo”, de perceber, mesmo que brevemente, a maravilha e a “redondeza” da existência.

    As afirmações místicas são afirmações científicas também e, neste ponto, não acredito que seja possível contemporizar. Por exemplo, quando se afirma que um “rombo em sua aura” é responsável pelo seu desequilíbrio emocional, não se está buscando explicar nada, em realidade. Os desequilíbrios emocionais continuam existindo, mas podemos buscar explicações lógicas. Quase sempre as encontramos no corpo de conhecimento científico que já existe.

    Eu gostaria de discutir um pouco o sentido do fanatismo reverso de que você fala. Fanatismo significa favorecer alguma ideia irracionalmente, mesmo em face de evidências contrárias. Ou seja, não é possível ser um fanático e um cético ao mesmo tempo – a menos que uma das duas coisas não esteja completa! Acreditar no que possui evidências científicas não pode, portanto, ser considerado fanatismo. O que vemos é que existe tanto misticismo que é, como você mencionou de certa forma, um bocado cansativo apontar cada caso. Também acaba ficando um bocado cansativo ver cada caso, são tantos! Mas o fato é que isso não altera a veracidade das proposições. Proposições que têm bases para sustentá-las são simplesmente críveis, enquanto as que não têm não o são. Isso não é, de forma alguma, uma capa conceitual protetora, é o pensamento lógico analisando as ideias e verificando em quais delas vale a pena depositar a confiança. É entender quais delas podem realmente contribuir pro nosso conhecimento de como as coisas funcionam, e quais são explicações inventadas.

    Assim segue o meu pensamento cético! 🙂

    • Mas não seria a ciência também uma ficção? Um mito moderno comprado de forma radical pela humanidade?
      Não estou concordando e nem discordando com o texto da Vera e nem a sua adaptação, mas não acho lógica a relação natureza/ciência. A potência da natureza escapa às teorias científicas em muitas coisas, não?
      Parabéns pela ideia do blog… Divertido!

      • Obrigado, Irene!

        Eu entendo o que você quer dizer, e tem mesmo a ver com o que o Fernandes disse.

        Acho que podemos concordar que existem diversos caminhos para experimentar a vida. Alguns, buscam explicar o funcionamento das coisas, outros criam alternativas diversas para nos relacionarmos com o mistério da existência. O método científico não é a única maneira de experienciar a vida, mas é a única maneira de realmente entender os padrões de funcionamento do mundo (ao que também chamamos “leis da natureza”). Nem só de pensamento analítico vive um ser humano – é bem verdade. Grande parte da existência é mesmo um mistério e é bonito que seja assim. O que incomoda nos métodos não-científicos é que eles fazem afirmações sobre como o mundo funciona, mas não têm bases para determinar isso. Por exemplo, durante muito tempo se pensou que o arco-íris era uma manifestação divina com significados específicos: uma aliança entre deus e os humanos, uma comunicação divina sobre assuntos bem determinados. Mas descobriu-se que era consequência natural da refração da luz. Esta é uma relação lógica, uma forma organizada e verdadeira de compreender o fenômeno do arco-íris, em oposição a uma história contada para tapar com a peneira a nossa própria ignorância a respeito destes padrões de funcionamento.
        Quanto ao mito da ciência, eu também o vejo, mas o entendo como o “mito do cientista” (um sujeito como eu e você, mas que goza de uma autoridade, talvez exacerbada, pelo seu status de cientista). Como ser humano, esse sujeito pode se dar aos mais diversos problemas, incluindo mentir, roubar (ideias) e manipular as massas. De fato, um pouco disso aconteceu nos governos de Hitler, o que obviamente é tenebroso.
        O ponto importante aqui é que a ciência não é um mito, já que realmente é possível conhecer os padrões naturais de tal forma que podemos fazer previsões exatas sobre o futuro (como a respeito das marés, dos eclipses, da chuva e dos arcos-íris). O mito é que a ciência é um trabalho terminado, um corpo de conhecimento imutável, e que portanto os cientistas são a fonte de toda a verdade. Não o são. Ao contrário, é ciência uma busca colaborativa e sempre em movimento. O seu real sucesso pode ser medido, no mínimo, pela capacidade que suas teorias têm de prever, com base em esquemas teóricos bem estruturados, o comportamento das coisas.

        Finalmente, a potência da natureza realmente nos escapa em muitas coisas! Como cético e admirador do método científico, acredito que seja possível conhecer as coisas. Nem sempre temos as ferramentas e a compreensão necessárias para tanto, mas até agora, foi uma questão de tempo; mais dia, menos dia, acabamos compreendendo o que antes era inatingível ou até mesmo inconcebível. Novos horizontes devem continuar se apresentando (de uma resposta surgem inúmeras novas dúvidas), mas, em termos gerais, acredito que natureza possa, sim, ser conhecida.
        Ainda a conheceremos como humanos, e não como camarões ou elefantes a conhecem. Esta limitação provavelmente nunca se dissolverá, deixando a maior parte do Universo sempre desconhecida. Muito embora isso não nos impeça de tentar!

  3. Aquele que só acredita em algo quando provado. Questionador de uma “verdade”. Aquele que não se deixa influenciar facilmente por uma opinião.Por isso não acho que o cético seja chato e tb nada haver com fanatismo. Como a ciência, não tem meio termo. ou vc ta doente ou não esta ou vc tem a cura ou não tem.

  4. Parabéns, gostei muito! Principalmente por você OUVIR o que o outro lado está dizendo, isso é raríssimo. As pessoas geralmente costumam rejeitar prontamente tudo aquilo que não concordam, sem ao menos procurar entender. Você, além de ter essa abertura e disposição, está fazendo um importante trabalho de tradução.

    Não sou cética nem mística, estou aberta a todas as possibilidades e as traduzo também quando as leio, pois intimamente sempre soube que está todo mundo falando das mesmas coisas, contudo com palavras diferentes.

    Novamente parabéns e continue com esse belíssimo trabalho de ser PONTE para o entendimento.

  5. Cheguei ao seu artigo por meio do da Vera Caballero, que eu havia lido e pensado: “Caramba, não acredito em nada de energia mística e aura, mas como este texto faz sentido!”
    O seu post veio como uma espécie de resposta a esse meu pensamento, como uma ligação entre as duas coisas, mostrando claramente que as duas idéias que povoaram minha cabeça naquela hora (ceticismo em relação a conceitos místicos X concordância em relação a idéias supostamente místicas) não eram necessariamente conflitantes, pelo contrário, podiam se complementar, cada uma sob seu ponto de vista! Nem li os outros posts (ainda), mas já curti seu blog só por essa intenção super válida de tentar achar os pontos comuns entre as duas coisas, em vez de brigar gratuitamente. Meus parabéns!

      • Obrigado pela contribuição, Georgia.

        Gostei da ideia de fazer uma análise cética do filme. Eu já o vi, há alguns anos, e lembro que realmente havia vários pontos equivocados sobre o funcionamento da física quântica. Vou assisti-lo novamente e, encontrando um tempo, posso tecer um comentário mais bacana.

  6. Como cético eu achei uma ótima iniciativa! Parabéns! Você teve a humildade de dar uma chance e ver o que o místico tem a dizer, e isso é raro!

  7. Olá Daniel Portugal!

    Bom, como foi dito acima por outros usuários, parabéns pela maneira atenciosa e humilde com a qual você coloca seu ponto de vista. Eu tenho algumas questões a levantar, que sempre quis fazer para uma pessoa aparentemente bem posicionada no diálogo entre as abordagens “mística” e científica.

    Eu sempre acreditei que muito do embate entre explicações “místicas” e explicações científicas acontece puramente no domínio da linguagem. Foi a primeira coisa que eu pensei quando li a sua versão do texto, afinal, as suas substituições, apesar do rigor cético e da linguagem científica, não alteram o sentido do texto e talvez até mantenham a maior parte da sua essência.

    Eu passei alguns anos lendo vários desses livros de “gurus” espirituais e também de autores ocidentais que buscam conversar com essa “linguagem mística”. E posso dizer que as palavras empregadas pelo texto original criam (pelo menos quando observo a maneira como me sinto a respeito delas) uma compreensão mais ampla do que está sendo dito. Embora a sua versão seja até mesmo mais elegante e inteligente, as palavras utilizadas no primeiro texto apontam para os símbolos com os quais eu já estou habituado – todo esse papo de “energia”, “universo” e etc.

    E aí, eu concluo: claro, isto acontece porque eu me acostumei com esse tipo de linguagem e ela tem um significado pra mim, que se alinha com minha experiência prática. E é exatamente aí que entra a minha questão. A linguagem tem um impacto profundo no ser humano, de acordo com a minha experiência pessoal. Um cientista pode convencer uma pessoa com muito mais dificuldade do que um orador profissional – ainda que o argumento do último não seja plausível de todo – simplesmente porque o orador sabe usar a linguagem de uma maneira que atinge as pessoas com mais facilidade.

    Eu acho que o meu primeiro questionamento seria: você acha que a linguagem científica é sempre a mais ideal para abordar um problema, independentemente do caso e da pessoa? Você não acha que a ciência certas vezes negligencia o poder da linguagem em si, atendo-se exclusivamente à discussão “isto é factual – isto não é”?

    Outra questão. Em uma resposta que você deu logo acima, você disse: “Proposições que têm bases para sustentá-las são simplesmente críveis, enquanto as que não têm não o são. Isso não é, de forma alguma, uma capa conceitual protetora, é o pensamento lógico analisando as ideias e verificando em quais delas vale a pena depositar a confiança. ”

    Você acha realmente que o pensamento lógico é sempre a maneira mais segura de avaliar se uma ideia merece confiança ou não? Independentemente das descobertas e fatos científicos, eu acho que a maioria dos seres humanos ainda se orienta mais pela experiência pessoal do que pelas verdades científicas. É claro que a experiência pessoal pode ser dúbia e confusa, e pode levar a uma série de enganos. Mas o oposto é igualmente real: existe a possibilidade de in-sights profundos sobre a realidade que as pessoas não conquistam através do pensamento lógico, mas sim através de uma compreensão súbita, como um “salto de consciência” (termo que esses cientistas new-age adoram). Algo perto do que chamamos de intuição.

    Muito da essência de várias ditas “filosofias orientais” (que, na verdade, são mais sistemas práticos do que disciplinas puramente limitadas ao plano do intelecto e da linguagem) centra-se exatamente na experiência íntima como a chave para a compreensão da realidade. A consciência é a ferramenta que todos os seres humanos têm, embora nem todos façam bom uso dela, aparentemente – enquanto a ciência é uma ferramenta que ainda hoje, a meu ver, serve para poucas pessoas. Isso faz com que muitos tenham que depender de um conhecimento que “vem de fora” – ou seja, acabam dependendo da autoridade dos cientistas. Você não acha que isso cria também uma relação de dependência que pode ser semelhante à relação de dependência de um indivíduo para com a religião (por mais que o conhecimento aponte para algo real)?

    Em outro comentário, você diz o seguinte: “O método científico não é a única maneira de experienciar a vida, mas é a única maneira de realmente entender os padrões de funcionamento do mundo (ao que também chamamos “leis da natureza”).”

    O que vou fazer a seguir é em grande parte uma especulação baseada no que eu li, que vai servir pra me guiar pra minha próxima questão. Não vamos nos ater à coisa em si, mas para o que ela aponta.

    Pelo que li a respeito da filosofia oriental e da sabedoria milenar concebida antes do início da história da cultura ocidental, sou levado a crer que grande parte desse conhecimento “espiritual” que está no berço de textos como os Vedas indianos teve origem em um tempo onde o homem, a compreensão do homem a respeito do universo e principalmente os métodos para se chegar a essa compreensão eram todos bastante diferentes do que temos hoje. Alguns usam o termo “tecnologia” para falar que estes antigos sábios possuíam realmente uma “aparelhagem interior” sofisticada para compreender e observar a realidade que nós ocidentais ainda não compreendemos.

    Da mesma maneira acredito que o que desse conhecimento chega para nós ocidentais hoje – pelo menos 95% do que chega – não passa de uma distorção que, não bastasse a distância que estamos da fonte desse conhecimento no espaço e no tempo, é ainda ampliada pelo oportunismo massivo da cultura do consumo. E é por isso (com grande razão, eu concordo) que a ciência costuma cair de maneira pesada em cima dessa linguagem “mística”, pela quantidade de charlatões que apenas querem se aproveitar da boa vontade das pessoas.

    Um místico que respeito muito pela maneira como dialoga comigo, Hazrat Inayat Khan, escreveu o seguinte: “O desacordo entre a ciência e o misticismo é apenas temporário”. O que ele queria dizer é que ainda vai chegar um momento em que a sabedoria mística e o conhecimento científico vão se provar uma coisa só.

    Enfim: é claro que a ciência e o método científico são reais e factuais, e “funcionam”. Nós sabemos disso. Mas ainda existe muito que a ciência não conseguiu elucidar. Talvez uma explicação que temos hoje para um fato seja complementada ou até substituída amanhã porque, afinal, “nós não tínhamos consciência desse fato ainda e isso muda muita coisa”. Na ciência, vejo, as coisas funcionam assim. Como você mesmo disse, nada é permanente.

    E vejo que de fato uma boa parte daquilo que experienciamos diretamente (para o qual com frequência não temos palavras ou uma explicação) influencia nossa compreensão do universo. Então minha última questão: você acha que o método científico ainda pode chegar a ser realmente eficaz ao lidar com a complexidade da experiência íntima humana (por exemplo, a experiência dos pensamentos e das emoções), que muitas vezes só está ao acesso da percepção individual, que não pode ser mensurada e nem quantificada por nenhuma tecnologia que hoje conhecemos? Você não acha que um método objetivo, que se volte para dentro, de forma a criar “clareza interior”, baseado na experiência e não apenas na lógica analítica (que depende de uma linguagem linear e do pensamento) é tão necessário quanto um método objetivo de observação do mundo externo?

    Espero que tenha sido claro o suficiente. A linguagem é limitada, de fato!

    Atenciosamente.
    (E me desculpe pelo tamanho do comentário!)

    • Muito obrigado, Cassiano, seu comentário foi sensacional!

      Vou precisar de um tempo pra responder com a atenção merecida, mas digo, desde já, que concordo com quase tudo que você disse!

      • Então, vamos em partes. Vou tentar falar sobre o seu primeiro questionamento: “Você acha que a linguagem científica é sempre a mais ideal para abordar um problema, independentemente do caso e da pessoa? Você não acha que a ciência certas vezes negligencia o poder da linguagem em si, atendo-se exclusivamente à discussão “isto é factual – isto não é”?”

        Concordo com você. O caso mais clássico da linguagem abrindo as portas para vivências especialmente ricas é a poesia. É incansável a admiração que temos pelos poetas que conseguem despertar em nós algum traço emocional que nos tire do dia-a-dia prático e nos faça mergulhar em um momento sagrado. Digo “sagrado” no sentido de apresentar uma descontinuidade em relação ao cotidiano; uma quebra positiva que modifica momentaneamente nossa consciência e nos permite experienciar, muito humanamente, nossas emoções, expectativas e intuições a respeito da vida. Esta experiência subjetiva é parte indissociável do nosso ser-no-mundo e não deve ser descartada.
        Um problema me parece surgir quando a experiência subjetiva aponta para uma direção e os resultados das observações apontam para outra. Neste caso, podemos não ter observado o suficiente e descobrir, depois, que nossas intuições estavam corretas. Podemos, também, ter construído uma interpretação do mundo que não estava de acordo com os seus padrões de funcionamento – um tipo de pensamento supersticioso.
        O método científico deve nos ajudar a identificar os casos e avançar nossa compreensão sobre cada assunto. Se tivermos observado pouco, é através de experimentos bem elaborados com rigor científico que poderemos eliminar hipóteses e nos aproximar da resposta. Se tivermos interpretado erroneamente algum padrão, também! A Ciência não questionará a sua experiência subjetiva per se, somente questionará a sua relação com o funcionamento do mundo. A vivência ainda é válida enquanto vivência mesmo, enquanto experiência sacralizada, com todo o poder estimulante e transformador que isso tem.
        Então, voltando ao ponto, depende do tipo de problema (ou questionamento, ou busca). Também depende do tipo de resposta que se está buscando. Se for sobre o funcionamento do mundo, usaremos o método científico. Já se for sobre as possibilidades da experiência humana, precisaremos incluir tudo que pode ser vivido – neste cenário, a ciência é apenas uma pequena parte.

        Novamente agradeço pelo seu comentário, gostei muito! Nas próximas semanas tentarei responder as outras questões.

        • Certo! Fique a vontade.

          Gostei muito do breve papo, é muito difícil encontrar pessoas que dialoguem de maneira sensata e humilde e sem levar pro pessoal quando seus pensamentos são questionados.

          • 🙂
            Cassiano, vamos para a próxima – antes tarde do que nunca!

            Você questionou: “Você acha realmente que o pensamento lógico é sempre a maneira mais segura de avaliar se uma ideia merece confiança ou não?”

            Preciso sair um pouco da minha zona de conforto pra trazer mais sabor a esta discussão. Sinto que os seus questionamentos são profundos e que respostas diretas demais deixam muito a desejar. Quero também buscar um texto mais leve – algo que talvez comunique ainda mais o que quero dizer, como você apontou. Então, vou começar com uma música do Tim Maia:

            Que beleza é sentir a natureza
            Ter certeza pr’onde vai
            E de onde vem
            Que beleza é vir da pureza
            E sem medo distinguir
            O mal e o bem

            Uh! Uh! Uh! Que Beleza!
            Uh! Uh! Uh! Que Beleza!

            Que beleza é saber seu nome
            Sua origem, seu passado
            E seu futuro
            Que beleza é conhecer
            O desencanto
            E ver tudo bem mais claro
            No escuro

            Uh! Uh! Uh! Que Beleza!
            Uh! Uh! Uh! Que Beleza!

            Que música sensacional, que plenitude! Gosto muito desta música, mas não consigo deixar de pensar, sempre que a escuto, que o Tim Maia estava em um momento que posteriormente o deixou envergonhado consigo. Era o tempo do “Universo em Desencanto”, do “Pensamento Racional”. Foi um tipo de vergonha característico: ele havia se entregado de corpo e alma, por assim dizer, a uma linha de pensamento, mas viveu intensamente o pareamento dessa experiência com as suas concepções a respeito do funcionamento das coisas. De forma igualmente intensa, viveu uma grande desilusão ao perceber que o ser humano não veio “da resina e da goma”, por exemplo, como o livro dizia. De que outra maneira seria possível viver esse encanto, senão entregando-se a uma experiência sagrada?

            O que mais chama a atenção nesta história é que a ideia não era simplesmente ser arrebatado! O pensamento era “racional”, havia explicações a respeito da origem, do futuro e do desenvolvimento humanos. É um exemplo de como o pensamento lógico, por si só, nem é suficiente para buscarmos a verdade; ainda é preciso partir de premissas sólidas. Também é um exemplo de como as experiências sagradas (ou místicas) são poderosas. Do mesmo álbum:

            Já senti saudade
            Já fiz muita coisa errada
            Já pedi ajuda
            Já dormi na rua
            Mas lendo atingi o bom senso
            A imunização racional

            A sua vida mudou. Mas o fato é que as ideias propostas pelo livro “Universo em Desencanto” eram, na melhor das hipóteses, fantasiosas. O filósofo Daniel Dennett discute este ponto com primazia no livro “Quebrando o Encanto” e propõe a seguinte reflexão: quais encantos devem ser quebrados?

            Permita-me deixar esta reflexão no ar e partir para um ponto seguinte: “Você não acha que [depender da autoridade dos cientistas] cria também uma relação de dependência que pode ser semelhante à relação de dependência de um indivíduo para com a religião (por mais que o conhecimento aponte para algo real)?”

            O linguista Steven Pinker, no livro “Como a mente funciona”, diz que uma das razões de sermos cientistas sofríveis é que nossos cérebros foram moldados para a aptidão e não para a verdade. Ele diz que “os conflitos de interesses são inerentes à nossa condição humana, e tendemos a desejar que prevaleça a nossa versão da verdade e não a própria verdade.” Ele comenta que em todas as sociedades o conhecimento especializado é distribuído de forma desigual e que a dependência de peritos é a regra. “Mas esta nossa dependência em relação a eles coloca a tentação em seu caminho”, Pinker completa. “Os peritos podem aludir a um mundo de maravilhas – forças ocultas, deuses irados, poções mágicas -, um mundo que é inescrutável para os meros mortais mas acessível graças aos serviços dos peritos. Os xamãs tribais são artistas embusteiros que suplementam seus consideráveis conhecimentos práticos com mágica aparatosa, transes induzidos por drogas e outros truques baratos. Assim como o Mágico de Oz, eles precisam impedir que os suplicantes vejam o homem atrás da cortina, e isso entra em conflito com a busca desinteressada da verdade.” Nas sociedades modernas o problema torna-se ainda mais agudo, pois mais numerosos são os peritos. Sobre este ponto, Pinker diz que “em princípio, práticas científicas modernas, como resenhas feitas por colegas da área, competição por subsídios e crítica mútua declarada, destinam-se a minimizar conflitos de interesse entre cientistas, e por vezes o fazem na prática.” Mas o custo da boa ciência é alto, pois “não evoluímos para o pensamento científico assim como evoluímos para reconhecer objetos, fazer ferramentas, apender a língua local, encontrar um parceiro sexual, prever os movimentos de um animal, encontrar o caminho – e [nossos ancestrais] jamais se depararam com determinados outros problemas – pôr um homem na lua, cultivar um milho de pipoca melhor, provar o último teorema de Fermat. O conhecimento que resolve um tipo de problema bem conhecido muitas vezes é irrelevante para qualquer outro problema.” Ou seja, não nos livraremos dos peritos. O que precisamos é desenvolver cada vez mais as práticas científicas modernas, já que elas buscam minimizar a influência da “tentação” de que Steven Pinker fala, além de diminuir moderadamente a dependência dos cientistas (embora ainda mantenha a dependência nos métodos científicos – ainda bem que eles estão em constante desenvolvimento).

            Finalizando, discordo de você só na comparação com a religião. A origem da certeza religiosa é tão diferente da origem da convicção científica, que não podemos compará-los em termos de fanatismo (característica que é incompatível com o ceticismo, sendo exatamente seu contrário). Enquanto a certeza religiosa garante que está certa com base simplesmente no dogma e na experiência mística pessoal, a ciência propõe exatamente o contrário. O que a ciência propõe é que você não aceite as proposições só porque alguém disse que é assim. O crescente número de peritos é uma ótima notícia neste sentido, já que na ciência as proposições devem ser provadas e comprovadas por outros, que só acreditarão se de fato encontrarem as mesmas evidências – quer esperem que elas existam, quer duvidem de sua existência.

            Bom, meu tempo anda escasso ultimamente, por isso demorei para responder. Em breve vou comentar seu último questionamento e tentarei falar sobre aquilo pra que ele aponta.
            Até mais!

  8. Acho que comentar textos dos outros é bacana, abre possibilidades. Mas o que você fez foi além. Riscar frases para colocar as suas em um texto alheio é muito deselegante (como diria Sandra Annerberg) e bastante arrogante da sua parte.

    • Obrigado por compartilhar a sua opinião, Patrícia!

      Como eu disse no início do post, eu preferiria uma outra maneira de indicar o texto que havia sido substituído, mas esta era a forma mais prática no editor de texto deste blog.

  9. Que interessante o confronto de uma visão mística , alicerçada nos mistérios da vida, e outra que se fundamenta em conhecimentos científicos do hoje. Se completam, sem anular as sensações e experiencias do que muitas vezes não tem ainda fórmulas de expressão e que são atemporais

  10. Apenas cores diferentes sobre as mesmas flores. Tudo para apenas aprendermos a ső Sentir….a força sutil permanente do Infinito SER que nos fas Ser..

  11. Bom dia!

    Achei interessante os dois lados do debate, em nenhum momento vi algum ar de agressão, muito pelo contrário, Daniel foi carinhoso ao pedir licença para alterar seu ponto de vista e Vera, gentilmente concedeu essa liberdade de expressão
    Parabéns aos dois!

    Lenita Saboya

  12. Ficou melhor que o original. Eu não sou cético mas você falou bem (em cima do texto) e não foi um otário dizendo que as pessoas que acreditam em alguma coisa além da física (chamam isso de metafísica :P), ou que desafie a compreensão e as noções costumeiramente concebidas e aceitas, merecem ser banidas do construto social, rsrsrs. Às pessoas mais analíticas eu recomendaria que iniciem a leitura da Suma Teológica de São Tomás de Aquino. Existem muitas perguntas, respostas e objeções as respostas que desmistificam muito da fé que existe no mundo, aquela que basicamente tudo é pecado, e que não existe perdão. Na verdade a religião só está aí pra ajudar as pessoas, o problema é que existem muitos se ancorando em posições pró-religião para receber apoio econômico, político, militar, etc. Assim como também existem religiosos que não demonstram ter fé no que professam.

  13. Olá Daniel. Muito interessante sua interpretação sobre o texto de Vera Caballero. Ela realmente faz colocações fantásticas e gostei de ver o Respeito que você deu à autora para sugerir alterações no texto. Muito bonito.
    Todavia, crio a expectativa de que sua mente esteja sempre aberta para reinterpretações, aceitações e concepção de novos signos linguísticos (neste caso, a palavra “energia”). Digo isso pois o espectro de energia visível pelo olho humano é bem limitado (vide link abaixo) e ainda estamos entrando na adolescência quanto à demistificação . Bem, você sabe disso, já que condutas cartesianas estão nas bases do pensar – (separar para entender). Einstein nos deu uma nova forma de ver – integrar para entender. “O homem erudito é um descobridor de fatos que já existem – mas o homem sábio é um criador de valores que não existem e que ele faz existir”. (Albert Einstein)
    Obrigado pela oportunidade de expressão.

    http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8d/Espectro_eletromagnetico-pt.svg

  14. Obrigado, Kiko!

    Com certeza, mente aberta é importante, na medida certa. Com a mente fechada demais, trazemos junto um embotamento a respeito do Mistério. Com a mente aberta demais, o cérebro cai. 🙂

    []s!

  15. Então, vale a pena conhecer um pouco mais de Wihelm Reich e Tesla. Reich foi aluno de Freud e deu continuidade no estudo da libido, a qual Freud fez boas descobertas, mas acabou abandonando. As descobertas de Reich são impressionantes e atestam a existencia de uma energia possível de ser vista, medida e utilizada. O que entra em choque com a interpretação de que a energia seja apenas uma reação fisio-química. Talvez tal reação, seja interconecta com a dinâmica desta mesma energia. Interessante que Reich chega cientificamente a comprovação de conceitos orientais como Ki, Prana, Kundaline. Ele a chama de orgone. E a mesma tem tudo a ver com o texto original. Vale a pena conhecer. Outra coisa, conhecimento científico não é a mesma coisa que cético ou ceticismo, o qual se caracteriza pela suspensão do juízo, em não dizer nem sim, nem não, mas uma posição momentânea até que se esteja de posse de informações que propiciem o juízo. O momento de dizer algo, seja cientificamente ou “misticamente”, já é um sair do ceticismo, se formos tratar com rigor a questão. Abraço!!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Connect with Facebook